terça-feira, setembro 02, 2014

O AMIGO DE PRAGA DE ROUPA E CASA NOVAS

Resolvi enfrentar a ferrugem e as teias de aranha que tomaram conta deste blog por uma causa nobre. Ou não. Sei lá. Depende do ponto de vista do observador. Tudo é tão heisenberguiano...

O fato é que O amigo de Praga renasceu, pelas mágicas, miraculosas mãos da editora Quatro Cantos. Repaginado, renovado, ele está de volta e agora frequentando as prateleiras das melhores livrarias deste lusófono canto do mundo.

Pô, não era razão para tirar o pó que recobria cada milímetro deste meu esquecido e negligenciado bunker internético?

A história é a mesma, os nomes dos personagens foram quase que totalmente mantidos, mas ela ganhou uma roupinha mais século XXI, uma contemporaneidade mais adequada a um livro com protagonistas jovens feito para jovens de 8 a 800 anos.

A história da nova encarnação do Amigo de Praga é a seguinte: incerto dia, em meados de 2013, vulgarmente conhecido como ano passado, estava eu em mode repouso, apenas conferindo as frenéticas atualizações do Twitter, quando alguém (não me lembro quem) da minha timeline retuitou a seguinte mensagem: “Procuramos bons textos infantojuvenis, veja como enviar seu original em contatos no nosso site http://www.editoraquatrocantos.com.br”.

Confesso que nunca havia ouvido falar da editora e fui ao endereço www pra conhecê-la. Gostei do que vi e senti firmeza na proposta. Mesmo sem muitas esperanças, resolvi enviar pra eles um velho exemplar do Amigo, daqueles que sobraram da tiragem que recebi como prêmio pelo concurso da Agepel (atual Secretaria Estadual de Cultura), de 1999 (na boa e velha coleção Supernova, que infelizmente não existe mais – nem o prêmio nem a coleção nem concurso algum).

Os meses passaram – nesse meio tempo o Mengão foi campeão da Copa do Brasil – e, num dia de dezembro, recebi um e-mail da editora Quatro Cantos. Eles queriam saber meu telefone. Até que meu cérebro atinasse para o fato de que fora para essa editora que eu havia enviado um livro meses antes, passou rapidamente pela minha cabeça que pudesse tratar-se de um spam que conseguira romper a barreira e vazado para a caixa de entrada para tentar me incluir em mais uma lista de telemarketing.

Mas a memória não me deixou na mão. Logo me lembrei do Amigo que havia voado pra São Paulo e, daquele momento em diante, passei a esperar com ansiedade o telefonema. Que aconteceu sem demora. Foi quando conversei pela primeira vez com minha então futura publisher, Rosana Martinelli, que proferiu as palavras mágicas: “Gostamos do seu livro e gostaríamos de publicá-lo. Você tem interesse?”

Se eu tinha interesse? Jogador do Goiás quer ir para o Barcelona? Candidato quer ser eleito? Os Estados Unidos querem invadir países ricos em petróleo? A Rússia quer a Ucrânia? Galinha quer milho? O rezador quer ir pro céu? O cativo quer liberdade? Peixe quer ficar na água? O náufrago quer terra firme?

Não respondi isso tudo. Limitei-me a um categórico e prolixo “sim”.

Foi desse jeito que começou o processo que culminou neste momento, em que O amigo de Praga, renovado e fortalecido, está pronto para tentar contatos de quarto grau com um número maior de terráqueos. Para tanto, agradeço à Rosana por acreditar e encampar esse projeto, por cuidar com zelo e carinho de todas as etapas da produção, distribuição e divulgação da obra; ao Renato Potenza Rodrigues, um amante incondicional dos livros, por me abrigar entre os autores de seu cada vez mais prestigiado selo; ao Adriel Contieri, fera das pranchetas, que captou a essência das cenas descritas e ilustrou o livro com maestria, e ao pessoal daqui de casa, minhas irmãs e meu irmão (que deu o tema para o livro), todos eles meus primeiros leitores, críticos generosos (suspeitos, portanto) e, principalmente, fiéis e incansáveis incentivadores.


A literatura pode ser poderosa, a imaginação pode ser fértil, mas nem elas são capazes de trazer meus pais de volta, para saborear este momento. Minha mãe, em 2000, soube que eu vencera o concurso da Agepel, ficou toda orgulhosa, mas não viveu para ver seu pimpolho receber o prêmio. Meu pai pelo menos pôde ver o resultado final (não foi à cerimônia de entrega do prêmio porque se recuperava de uma cirurgia na próstata), viveu até 2012, e talvez desse uma palavrinha sobre essa nova encarnação do Amigo de Praga: “Divertido”.

Para mais detalhes sobre o livro - sinopse, número de páginas, onde comprar, preço - clique aqui. Ou aqui, sei lá...

terça-feira, agosto 21, 2012

O DOMINGÃO DO FALSTAFF


Ô, loco, meu! Quer dizer, “loco” não. Devemos, de forma politicamente correta, dizer: “Ô, indivíduo temporária ou definitivamente privado das faculdades mentais ditas normais pelas convenções da sociedade ou que não se comporta do modo esperado pela maioria, meu!”

Vamos começar o programa de hoje com o “Se Vira nos 15”. Vamos receber com muito carinho o meu grande amigo Spinoza, que terá apenas 15 dias para expor todo o seu sistema de pensamento. Só 15 dias, hein, Baruch! Não vai dar uma de Fidel comigo não, viu? Mês passado o Rousseau vinha fazendo uma apresentação belíssima, mas foi eliminado por ter abandonado o palco para agredir o espectador que gritou “bom selvagem é selvagem morto!”

Nossa produção acaba de informar que o Spinoza ainda não chegou aos nossos estúdios porque se perdeu pelo caminho enquanto divagava sobre os paralelos entre sua ética à maneira dos geômetras e a licitação das obras para a Copa do Mundo. Depois o Baruch apela quando a gente chama ele de meio português.

Bem, vamos seguindo com nosso programa curtindo as “Videofilosofadas”. E olha que as “Videofilosofadas” de hoje estão demais, hein?

Olha só esse vídeo! O professor de filosofia foi ao presídio para dar uma palestra sobre os imperativos categóricos de Kant. Veja só como os presidiários começam a congelar e entrar em um estado catatônico. Agora alguns começam a ser removidos pelos guardas, como se fossem estátuas. Dizem que alguns viraram vegetais para sempre. Muito bom, muito bom, meu!

Agora o menino que levou cascudo por causa da filosofia. Orra, meu! Isso não se faz! O garoto foi convidado para a festa a fantasia e deveria ir vestido de Super-Homem. Aí chegou o dia e ele apareceu de casaco, aliás, a roupa toda no estilo Europa do século XIX, bigodão... Ninguém entendeu nada e ele levou cascudo, pescoção e muito bullying dos colegas. Que coisa, meu! Apanhou do Batman, do Hulk, da Mulher Maravilha e até do macaquinho dos Supergêmeos. Mas ele gritou que não tinha problema, pois estava além do bem e do mal, já que foi fantasiado de Super-Homem, mas o do Nietzsche.

Chegou a hora do quadro “Retrato Confidencial”. Vamos receber meu particular amigo René Descartes! E aí, René! Já furou muito poço hoje?

-        Poço, Falstaff?
-        “Poço cartesiano”! RARRARRARRÁ!

Mas chega de lero-lero e vamos ao seu “Retrato Confidencial”. Para começar, vamos acompanhar o depoimento de seu ex-secretário particular, o Tiãozinho do Cogito:

-        Olá, professor Descartes! Lembra de mim? Acho que não, né? Mas eu vou clarear sua mente. Ah, esqueci, o senhor já tem a mente iluminada... Bom, eu sou o Sebastien LeFleur, que o pessoal chamava de Tiãozinho. Eu pegava cafezinho pro senhor, achava seus óculos, fazia o clipping dos jornais do dia, essas coisas. Um dia, o senhor estava muito doidão, talvez por excesso de cafeína ou outra coisa, e me fez três perguntas rápidas: “Você cogita se tornar professor titular?”, “você ergue mais de 70 quilos na academia?” e “em vez de 'índice' eu escrevo 'sumário' ou 'somário'?” Então eu respondi “cogito”, “ergo”, “sum”. Daí o senhor começou a repetir sem parar essas três palavras e passou a escrever freneticamente. O resto é história. Quando o senhor virou best-seller mundial, eu contei pra todo mundo que eu fui a inspiração para a famosa frase, mas ninguém acreditou. E acabei ganhando o apelido de Tiãozinho do Cogito, além de ter sido internado no sanatório e ter perdido qualquer chance de me tornar professor titular. Obrigado por nada, professor.

Epa, epa, René! Pisaste na bola, companheiro! Mais ingrato que você só o príncipel Hal. Mas agora vamos ouvir o relato de Antígona de Santorini, que...

-        Mas eu não conheço nenhuma Antígona...
-        Qualé, René? Tá caducando? Tu tem só uns 500 anos... Fala, Antígona!
-        Olá! Venho aqui agradecer esse grande intelectual por toda a sua obra. Seus escritos mudaram minha vida. Hoje sou uma pessoa totalmente diferente. E mudei pra melhor, é claro. Se não fossem seus livros, eu teria permanecido na escuridão, sem norte, sem destino. Seus livros me fizeram enxergar a vida de uma outra forma, mais bela, mais generosa, mais confiante. Hoje sou mais tolerante, faço mais amigos e encontrei a felicidade plena. Obrigado principalmente por nos dar um personagem como o Cândido e por todas aquelas lições de vida e otimismo. Um beijão!
-        Hã, Falstaff, creio que houve um engano aqui...

Pô, produção! Vocês confundiram os franceses. Esse vídeo aí é sobre o Voltaire! Desculpa, René e você de casa. Outro dia a gente continua, René. Vamos agora finalizar o programa com a atração que todo mundo está esperando: a “Dança dos Filósofos”!

Hoje vão dançar os seguintes casais: Heidegger e Hannah Arendt, Gramsci e Marilena Chauí, Aristóteles e Hipátia de Alexandria, Sartre e Simone, Sócrates e Platão, Marx e Engels e Wittgenstein e Foucault.

***

Infelizmente chegou a hora de ir embora, galera! Mas semana que vem tem mais Domingão do Falstaff, com mais atrações para você. Esta semana vamos tentar confirmar a presença de Feuerbach, Hegel, Saint-Simon, Proudhon, Marx, Bakunin, Lênin, Trotsky, Žižek, Mino Carta e Reinaldo Azevedo para discutir, em seus mínimos e emocionantes detalhes, a evolução do pensamento de esquerda. Até lá, galera! Fiquem com as dançarinas do Falstaff, com suas belas minitogas dotadas de mangas de cotovelo de couro!

quarta-feira, dezembro 28, 2011

DICAS (ACUMULADAS) DE LIVROS

Falta de tempo, desleixo, pura malandragem... São muitos os motivos pelos quais este blog encontra-se tão desatualizado. Para compensar (como se alguém estivesse sentindo falta...), aqui vão algumas dicas, juntinhas num mesmo post.

DAYTRIPPER - Prova viva da maturidade alcançada pelos quadrinhos (algo que aconteceu há muito tempo, mas longe da percepção da maioria), a obra dos irmãos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon foi lançada originalmente em inglês pelo conceituadíssimo selo norte-americano Vertigo. O mesmo que foi responsável pelo lançamento do nome do britânico Neil Gaiman, que revitalizou o personagem Sandman em 1989.

O livro fala das muitas vidas e mortes de Brás, um personagem cujo nome é uma explícita homenagem a Machado de Assis. O resultado, acredito, deixaria orgulhoso o Bruxo do Cosme Velho. Gabriel e Fábio, antes e depois de Daytripper, já fizeram muitos trabalhos para diversas editoras dos EUA. Curiosidade: o Brás é a cara do Chico Buarque.

Para mais detalhes, favor clicar neste link.

O PRÍNCIPE MALDITO - Mais um livro da imaginária série "Coisas que nossos livros de história do tempo da escola não contam". A historiadora Mary Del Priore nos presenteia com mais uma bela obra, uma nova e esclarecedora viagem ao passado. Assim foi possível conhecer a fascinante e estranha história do quase-imperador Dom Pedro III.

Pedro de Alcântara Augusto Luis Maria Miguel Rafael Gonzaga de Bragança Saxe e Coburgo, primeiro filho da princesa Leopoldina e de seu marido gringo, Luis Augusto Maria Eudes de Saxe e Coburgo, não era o primeiro na linha sucessória. Na sua frente estava a princesa Isabel (aquela da Lei Áurea). Como esta demorava a engravidar do também gringo conde Gastão D'Eu, o povo (ou os cariocas?) tornara-se simpático à ideia de que a coroa passasse a ornar a cabeça loura (mas um tanto quanto desequilibrada) de Pedro Augusto depois que Dom Pedro II morresse. Além do mais, a popularidade de Isabel era uma mescla daquela conquistada no final do segundo mandato por Bush Filho e FHC. 

Mas a princesa, enfim, teve um filho, ou seja, a continuidade da dinastia estava garantida para além da morte dela. Então já não fazia sentido repassar a primazia da sucessão ao sobrinho da herdeira. Mas as articulações continuaram. Gente de dentro do governo e do Exército era favorável à coroação do jovem príncipe, por não concordar com a carolice de Isabel e com as maracutaias protagonizadas pelo Conde D'Eu. Dizia-se, aliás, que ele, o gringo, é quem governaria o país, algo inaceitável para os nacionalistas. A autora relata também os desmandos no conde durante a Guerra do Paraguai, fatos que em nada ajudaram em sua imagem perante os brasileiros e os militares.

A rivalidade dentro da família imperial, as intrigas políticas, as negociações, a busca de apoio entre ministros e senadores (vixe, tá parecendo coisa que a gente conhece muito bem...), tudo isso ficou para trás com a proclamação da República. A corte foi expulsa do Brasil, ganhamos um presidente, eleições e o príncipe Pedro Augusto perdeu definitivamente a cabeça.

Saiba mais sobre esse saboroso livro indo a esta página.

NOTAS SOBRE GAZA - Outro ótimo lançamento de 2011 foi Notas sobre Gaza, do jornalista/desenhista maltês Joe Sacco. Depois de escrever (e desenhar) sobre as crises mais recentes na Palestina, Sacco resolveu, assim como Mary Del Priore, voltar no tempo. De tanto ouvir falar sobre o massacre de 1956 na Faixa de Gaza, perpetrado por militares israelenses, ele resolveu pesquisar o assunto. O resultado é mais uma obra-prima dos quadrinhos jornalísticos (se é que existe tal categoria...).

Sacco também escreveu sobre os conflitos na Bósnia e, a exemplo do Oriente Médio, viveu com os nativos, conversou com eles, tirou fotos, fez anotações, correu riscos e, enfim, conseguiu atingir, em minha opinião, o patamar de um John Hersey, de um Gay Talese (favor não deixar de ler também estes dois monstros do jornalismo literário - ou da literatura jornalística?).  


Menção honrosa também para o novo livro do Fernando Morais (Os Últimos soldados da guerra fria), O Sonho do celta (Mário Vargas Llosa), Hitler (Ian Kershaw) e, claro, todos as obras sobre os 30 anos do título mundial do Mengão.

Sobre o grande ano dos quadrinhos no Brasil, uma das melhores fontes é o Blog do Paulo Ramos.




quinta-feira, julho 21, 2011

GOIÁS NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS

Uma província tão periférica em relação à corte brasileira, no século XIX, quanto as cidades amazonenses da fronteira com a Colômbia nos dias de hoje, Goiás, mesmo assim, cavou espaço na obra do nosso maior escritor. Não consta que Machado de Assis tenha passado pela terra do pequi, mas o conto A Parasita Azul, publicado no livro Histórias da Meia-Noite, foi ambientado em terras goianas. Ele não diz em que cidade, mas sabe-se que o lugar tinha uma festa do Divino Espírito Santo (que nem no "Chico Mineiro").

O título esquisito não revela, mas trata-se de uma história romântica, em que Goiás entra apenas como moldura para o caso do rapaz que volta ao lar depois de estudar medicina em Paris. Há o clichê do choque cultural, um amor que ficou para trás (com uma princesa russa!), o pretendente rival ciumento. Mas a maestria machadiana está lá, intacta, única, irônica, elegante.

Só que o rapaz acaba se apaixonando por uma goiana tão deslumbrante quanto arredia, desiste da França, da princesa e... Bom, melhor parar por aqui. Quem quiser ler o conto todo sem gastar dinheiro pode desfrutar desse prazer sem peso na consciência. A obra do bruxo do Cosme Velho já caiu em domínio público faz tempo e pode ser baixada legal e gratuitamente por meio de infindas fontes.

Por exemplo, esta imprescindível página: http://www.dominiopublico.gov.br

A Parasita Azul está aqui.

segunda-feira, julho 04, 2011

MICROCONTO MEIO QUE INCLASSIFICÁVEL

Advérbio de Almeida

Sem-eira-nem-beiramente, cresceu perto do cais, onde a-ver-naviosmente sonhava com aventuras para além de sua doméstica mezzomental, mezzofísica clausura. Acabou partindo via-terrestremente, resolvendo parar na cidade em que as pessoas mais coloridamente se vestissem.

Como, contrariamente a tudo que esperava, as pessoas coloridamente vestidas levassem a vida acinzentadamente, sua cabeça turbilhonou-se ao ponto de autoperdição. Fora-de-orbitamente, perpetrou desatinos e crescentemente tornou-se uma ameaça à cinza sociedade.

Atos eticomoralegalmente condenáveis tornaram-no habitofrequentemente hóspede do sistema penitenciário local. Quando, num paroxismo hemorrágico-perfurocortante, deixou permanentemente sem vida um cúpulo-influentemente bem colocado indivíduo, ganhou o direito de viver xilindrorreclusamente.

Comportamentalmente correto, saiu em menos de seis anos. Centradamente, empregou-se, casou-se e firmou-se. Socialmente aceito, comprou casa perto do cais. Ensimesmadamente, embora trabalhasse assoberbadamente, quedava-se a-ver-naviosmente. Como dantes. O passado, repleto de advérbios escolhidos erradamente. Talvez. Sim ou não. Não importa. Mesmo. O que importa é o advérbio que restou: infelizmente.

sexta-feira, junho 24, 2011

DICA DE LIVRO: NO TEMPO DAS ESPECIARIAS

Os americanos que dançavam o vira

Eles rodavam o mundo em busca de boas oportunidades de negócio. Quando as encontravam, fechavam negócio. De qualquer maneira, mesmo que não tivessem o consentimento da outra parte. Quando seus interesses, ainda que fossem na verdade os interesses de sua elite, eram ameaçados, partiam para a ignorância usando quaisquer pretextos, agarrando-se a qualquer justificativa, mesmo que esta não justificasse nada, pelo menos aos olhos e ouvidos de seres dotados de alguma sensatez.

Antes que me acusem de estar fazendo mais um exercício de jornalismo futurista, daqueles que aparecem em obras de ficção científica ambientadas no porvir, esclareço que o parágrafo acima não se refere aos hábitos contemporâneos dos Estados Unidos enquanto entidade promotora de ações público-privadas em grande parte desprovidas de simpatia pelo mundo afora. O relato é parte do que se pode depreender do livro "No tempo das especiarias", de Fábio Pestana Ramos, que conta a saga do portugueses no breve (historicamente falando) período  em que nossos "descobridores" dominaram a rota marítima das Índias e conquistaram o título de Império da Pimenta.

Sem tato e sem qualquer diplomacia, Portugal começou a fazer seu caminho alternativo rumo à fonte das valiosíssimas especiarias pela costa da África. Para vender o produto diretamente na Europa, sem o incômodo dos mercadores italianos e árabes, que faziam a rota por terra, os conterrâneos de Camões impunham-se pela força a quem estivesse pela frente. Com a desculpa de que precisavam combater os infiéis (muçulmanos) e/ou trazê-los para a "verdadeira fé", obtinham facilmente bulas papais, espécie de autorização do Vaticano para a prática de atrocidades, carta branca para expor partes do corpo que normalmente não veem a luz do dia, desde que os proprietários desses órgãos não fossem bons cristãos.

Já Bush júnior recorria a fajutos relatórios sobre a existência de armas de destruição em massa escondidas em território iraquiano... Mas voltemos aos séculos XV e XVI.

Com incontornável e truculenta mania de impor suas religião e cultura aos povos litorâneos da África e da Ásia, os portugueses foram colecionando inimizades e antipatia. A fama já os precedia quando finalmente chegaram ao subcontinente indiano. Assim, não era de se estranhar que os nativos rebelassem-se a todo momento, chegando a fazer associações com os "bonzinhos" ingleses e holandeses contra nossos patrícios. Com mais, digamos, jogo de cintura, as outras duas potências marítimas ficaram com o espólio do breve império luso nas Índias até meados do século XX.

Além da marra, pesou contra a hegemonia portuguesa o fato de que em 1580 a Espanha abocanhou toda a península ibérica, graças à impetuosidade irresponsável do rei Dom Sebastião, que gostava de tomar a linha de frente das batalhas de peito aberto, pleno de patológica coragem. Os mouros o mataram na famosa contenda de Alcácer-Quibir, ele não tinha herdeiros, o reino ficou na dúvida sobre quem tinha direito ao trono, as elites estavam simpáticas aos vizinhos, abriram-lhes uma brecha, eles vieram e pronto: Inês era morta (opa, este é outro episódio - o da Inês - da lusa história).

Bom... e que lição tirar de tudo isso? Nenhuma. Só constatar que mudam os tempos, os nomes, as nacionalidades, mas o ser humano é o mesmo, a mentalidade não evolui em um aspecto: a ganância. Quem detém o poder exerce-o sem pudor. A potência de plantão vai sempre explorar ao máximo os outros povos. Sempre foi assim antes de Portugal. É assim com os Estados Unidos hoje - e crescentemente com a China.

Portugal só entrou no baile por causa do livro do Fábio Pestana Ramos, cheio de méritos e digno de elogios pela extensa pesquisa em arquivos lusitanos e também brasileiros - já que ele fala da "carreira" do Brasil, sucessora da rota da Índia.

O único problema em relação à obra é que, especialmente por ter resultado de uma tese de mestrado, apresenta muitos deslizes gramático-ortográficos. Outro reparo para as próximas edições é prestar atenção aos nomes de pessoas e lugares. Por exemplo, somente na página 182, o rei Felipe II, primeiro soberano durante o domínio espanhol, foi chamado de Henrique, Fernando... e até de Felipe.

NO TEMPO DAS ESPECIARIAS
AUTOR: FÁBIO PESTANA RAMOS
EDITORA: CONTEXTO
288 PÁGINAS
ISBN: 978-85-7244-334-0

segunda-feira, maio 16, 2011

MICROCONTO DESNECESSÁRIO: O PRETERIDO

Ele era perfeito para o cargo. Três graduações, dois mestrados e um doutorado. Mais de 20 anos de sucesso comprovado no serviço privado, em que angariou uma imagem de competência, seriedade e integridade. Quem o conhecia estranhou quando ele se aproximou de alguns políticos nas últimas eleições. Chegou inclusive a fazer algumas doações para certas campanhas. Então revelou que tinha o sonho de ocupar um cargo público. "Quero contribuir com a sociedade com algo mais, fazer algo diferente", discursava, transparecendo sinceridade. Com a vitória dos candidatos que apoiara, foi naturalmente cogitado para o primeiro escalão do governo. Dia após dia, esperava pelo anúncio de seu nome. Nada. Preenchidas todas as vagas principais, ele começou a sondar os "amigos" políticos sobre os motivos do esquecimento de seu nome. Na verdade não havia nada de errado com ele. Mas faltava algo mais, algo que as pessoas não lhe diziam com clareza, mas que ele percebeu do que se tratava. Exasperado, ligou para o grande cacique político: "E quem disse que eu sou honesto?"

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

DICA DE LIVRO: LENIN: A BIOGRAFIA DEFINITIVA

A amoralidade na política ou no exercício do poder é algo tão antigo quanto o surgimento do primeiro líder da história humana, provavelmente em volta de uma fogueira, talvez depois de uma altercação física, no interior de uma caverna africana. A sistematização da velha máxima segundo a qual os fins justificam os meios se deu com Maquiavel, no século XV. Era o fim da hipocrisia. Seu “O Príncipe” tornou-se uma espécie de manual de operações do bom (e mau) governante nos séculos seguintes.

Outras correntes de pensamento surgiram, teorias políticas entraram e saíram de cena, filósofos mais ou menos sérios desovaram suas teses e utopias, emergiu a raça dos sociólogos... Mas no final tudo, absolutamente tudo – em se tratando de prática e manutenção do poder – acabou se tornando uma mera variação sobre a base lançada pelo autor florentino.

Por exemplo: quando você ouvir governantes (atuais ou de outrora) implorando para que esqueçamos o que eles escreveram, isto é Maquiavel. Quando você ler que determinado poderoso de plantão está agindo de forma eticamente contrária àquela que pregava quando na oposição, isto é Maquiavel. Quando você notar que aquele partido que você admirava nos tempos de combate à situação passou a agir como seus antigos alvos, isto é Maquiavel.

Ora, Lenin pegou o que Marx escreveu e adaptou às suas necessidades revolucionárias (nascia o marxismo-leninismo) e, depois de chegar ao poder, distorceu suas próprias teses em nome da governabilidade. Isso tudo se parece com fatos ocorridos no Brasil das últimas décadas? Pois é: isto também é Maquiavel.

A biografia de Lenin escrita por Robert Service vale-se de documentos que só vieram à luz com o fim da União Soviética. Ou seja, vai muito além das hagiografias autorizadas pelo regime de Stalin e seus sucessores. Dos porões dos arquivos soviéticos surge um Lenin mais maquiavélico que Maquiavel. Um animal totalmente político, que não via problemas em sacrificar pessoas e ideias (até as suas próprias) em nome de um projeto de poder.

Depois da revolução de 1917, alguns bilhetes endereçados a aliados, de tão chocantemente violentos, foram mantidos estritamente confidenciais por mais de sete décadas. Neles, o homem que rolava no chão ao brincar com sobrinhos e filhos de amigos “sugeria” friamente e execução de centenas de pessoas. São várias as provas de ações verdadeiramente desprezíveis. Até Stalin corou.

Mas a revolução deveria prosperar custasse o que custasse. E o terror era uma política de Estado. Uma sugestão maquiavélica elevada à enésima potência. Service informa que Lenin leu Maquiavel. Tendo ou não levado ao pé da letra as recomendações do velho puxa-saco do príncipe de Florença, o fato é que o fundador da ditadura do proletariado (só no nome, diga-se en passant...) anabolizou as ideias do florentino e acrescentou seu próprio tempero. Assim como fez com Marx. E ajudou a incorporar de vez ao inconsciente coletivo a realpolitik.

Desse modo, praticamente todo político, ao chegar ao poder, de forma consciente ou não, deixa de ser aquele que aparecia no horário eleitoral (no caso brasileiro, evidentemente). Quando você perceber tal metamorfose, não se espante mais. Isto é leninismo. Mas também é Maquiavel.



Lenin: a biografia definitiva
Título original: Lenin: a biography
Autor: Robert Service
Tradutor: Eduardo Francisco Alves
Editora: Difel
Formato: 16 x 23  
630 páginas

terça-feira, maio 11, 2010

MICROCONTO DESNECESSÁRIO

Culpa do Código Penal

Ele estava calmo na delegacia. Nem parecia que estava para ser enquadrado no artigo 121 do Código Penal. Homicídio qualificado. E por motivo torpe, ainda por cima. Mas ele permanecia calmo. Tinha a calma dos jihadistas que sobrevivem a um ataque contra os infiéis não-combatentes. Sem culpa, sem remorsos. Ele tinha Deus dentro de si (embora a divindade que ele alega adorar tenha decretado, por meio de um certo hebreu nascido no Egito, que um dos mandamentos que seus seguidores deviam observar com mais atenção dizia "não matarás"). Mesmo assim ele se considerava cheio da razão divina. Por tudo isso é que com calma e até um leve sorriso no rosto ele ouviu o delegado ditar para o escrivão: "O acusado admitiu ter desferido três tiros na vítima depois que, durante seu sermão, o acusado afirmou ser um pastor 24 horas, que estaria sempre de plantão para ouvir os membros de sua igreja, ao que a vítima bradou, do meio da multidão: 'Beleza! Então seu slogan vai ser ligue 171 e chame seu pastor!'"

sexta-feira, abril 02, 2010

ARISTÓTELES OMORRIS: A VOLTA (INFELIZMENTE) DO QUE NÃO FOI

Este ano começou com uma auspiciosa notícia para os leitores deste blog: Aristóteles Omorris deixaria de escrever neste espaço. Ele recebeu uma proposta (!) de um jornal que passaria a circular em Jataí a partir de fevereiro. Mas a coisa não vingou e, por isso, tenho a desonra de anunciar não só a permanência de Totó, mas também o desprazer de publicar aquilo que seria sua primeira coluna no natimorto periódico. Para consolo de todos nós, no entanto, informo que o salário do indigitado (e indigente) colunista sofreu uma redução da ordem de 50%. Ou seja, agora ele vai receber apenas meia tijela de Bonzo ao mês. Deleite-se (?) com o texto escrito quase em vão.


Abaixo o preconceito contra a elite


Por Aristóteles Omorris

Itumirim, Arizona - Apesar de ter há muito alcançado um elevadíssimo padrão de vida e de amealhar ganhos anuais que causam inveja a noveaux riches como Bill Gates e Warren Buffett, aceitei o convite do proprietário deste jornal para fazer parte de seu seleto grupo de colunistas. Falou mais alto minha boa vontade para com aqueles que estão começando, minha disposição em ajudar sempre, minha magnanimidade e, sobretudo, minha insuperável humildade. O depósito mensal de dois milhões de dólares em minha conta nem foi levado em consideração na hora do sim.

Então, ao trabalho, pois não estou aqui para falar de mim mesmo, mas de coisas menos interessantes. Como, por exemplo, a próxima Copa do Mundo de futebol, que será realizada no bárbaro continente africano. Foi-se o tempo em que tal evento era cercado de glamour e imponência. Agora levaram-no a um lugar que eu costumo frequentar apenas para sujar minhas botas de legítimo couro italiano em sangrentos safáris.

Lembro-me como se fosse ontem que me meti em uma saudável competição com meu amigo kaiser Guilherme para saber quem matava mais leões, rinocerontes e elefantes. Bichos fétidos e inúteis, suas mortes pelo menos serviam para aplacar o tédio de nossas vidas de elite. Minhas madeireiras também fizeram história naquele atrasado continente. Eu chorava de felicidade a cada árvore derrubada. “Madeira no chão, mais dinheiro no colchão!”, era nosso lema.

Agora, como pode a Fifa realizar uma Copa do Mundo em um lugar que não passa de um gigantesco zoológico? O pior é que parece que a Copa de 2014 será no Brasil. Quando esse importantíssimo evento voltará ao seio da civilização? Os Jogos Olímpicos na China já foram um erro. Não se pode delegar certas tarefas aos nossos fornecedores de chá e ópio. Ah, minhas inesquecíveis tardes londrinas, ali no número 10 da Downing Street, onde Churchill e eu aplacávamos nosso tédio das classes superiores saboreando alguns subprodutos das importações do antigo Império do Centro.

Longe de mim ser racista ou nutrir qualquer tipo preconceito, mas não se pode fechar os olhos para o fato de que certas nações já provaram sua capacidade para o fracasso por inúmeras oportunidades. Quando um boliviano assumir a presidência da Organização Mundial do Comércio, vou pedir licença para mudar de planeta.

Espero voltar às páginas deste digno periódico com assuntos mais amenos e agradáveis, com humildes e singelas passagens, como uma de minhas férias em Mônaco, quando tive de tirar dinheiro do bolso para pagar umas contas do príncipe Rainier e de Grace (um ex-affair de moi).

Aristóteles Omorris é empresário, engenheiro civil, PhD em civilizações mesopotâmicas e maquiador de currículos

segunda-feira, outubro 12, 2009

DICA DE LIVRO: STÁLIN - A CORTE DO CZAR VERMELHO


São 864 páginas de uma dura lição sobre o que de pior pode vir do ser humano. De sanguinária insanidade comparável talvez só à de Hitler, o líder soviético Josef Stálin não pode ser tratado por algo mais brando que a palavra genocida. O pior é que tem gente em altos cargos governamentais - na Rússia e no Brasil, hein? - que ainda defende o pai da Svetlana.

Entre um afago na filha e um bom livro, uma rápida ordem para fuzilar milhares de "inimigos do povo". Assim era a rotina do homem mais temido da história da Rússia e seus satélites.

O livro traz memórias e diários inéditos de personagens importantes, além de entrevistas com os sobreviventes e descendentes dos poderosos da era stalinista. O jornalista e escritor inglês Simon Sebag Montefiore beneficiou-se da recente liberação de cartas, bilhetinhos, anotações nas margens de documentos e livros, minutas de reuniões, agendas e papéis que passavam todos os dias pela escrivaninha de Stálin, em muitos dos quais ele deixava sua marca de aprovação, reprovação ou escárnio. Com isso, pôde revelar a intimidade do poder que até agora permanecia envolta em mistério e mostrar sua face mais humana, embora nem sempre menos brutal. Montefiore oferece um retrato de Stálin - leitor compulsivo, apreciador de música e cinema, burocrata minucioso e infatigável, pai rígido, marido desesperado com o suicídio da esposa, político suspeitoso e paranóico, implacável com possíveis inimigos e concorrentes, e líder disposto a sacrificar qualquer coisa - família, amigos, camaradas e milhões de camponeses e soldados - em nome do ideal comunista.

O autor traz para o primeiro plano o que chama de 'magnatas', os membros do círculo íntimo do poder - Mólotov, Vorochílov, Mikoian, Khruchióv e muitos outros -, que, como uma grande família, participavam de longos jantares e intermináveis bebedeiras, em que decidiam assuntos de Estado e compartilhavam a responsabilidade pelo terror. Montefiore relata em detalhes os bastidores das grandes decisões políticas e diplomáticas, ao mesmo tempo em que penetra na 'cozinha' dos poderosos, revelando as preocupações cotidianas com a saúde, as férias, os filhos, ou o 'disse-me-disse' muitas vezes mortal dos corredores do Kremlin. No fim, temos a imagem detalhada e completa da grande máquina montada para implantar o comunismo a ferro e fogo.

segunda-feira, agosto 24, 2009

PRATÃO, PIPÓCRATES E UM ENGAJAMENTO UM TANTO QUANTO INSÓLITO

- Pô, Pratão, eu vi seu filho de mão dada com macho na Parada Gay! Como é que tu deixa isso acontecer? Chama ele na chincha enquanto é tempo. Quem avisa amigo é...
- Fica frio, Pipo. Tá tudo sob controle.
- Sei. Sob o controle do negão...
- Calma, rapá... Meu filho é espada. É macho pra cacete!
- Hum-hum...
- Ele me avisou que participaria da Parada. E tem mais: ele vem frequentando ambientes GLS, sites de boiola e está filiado a todos esses troços de entidade de apoio à viadagem.
- Sei. E não é gay...
- Não é, pô. Tô te falando. Ele está praticando o que ele chama de “homossexualismo engajado” e...
- Claro, “engatado”. Sempre “engatado”...
- Fica na tua, meu! É uma bicharia de fachada. Um homossexualismo de protesto, sacô?
- Ah, então tá explicado... Rarrarrarrarrá!
- Ué, não tem música de protesto, arte engajada? Por que não o homossexualismo de protesto?
- Sei... Ele faz um sacrifício em nome da livre queimação, é isso?
- Ele não é gay, mas defende o fim da discriminação e do preconceito contra os baitolas, entende? É uma forma de luta que...
- Luta greco-romana: aquela que os camaradas ficam um em cima do outro...
- Ele só participa dos movimentos e...
- Movimentos dos quais não quero nem saber detalhes, por favor.
- Para de gracinha, babaca!
- Então quem faz música de protesto não é músico?
- Vai te...
- Quem faz arte engajada não é artista de verdade?
- Há casos e casos...
- É, ouvi dizer que ele teve muitos casos...
- Então quer dizer que uma pessoa não pode ser sensível ao sofrimento que as pessoas tidas como diferentes...
- Sim, ele é muito sensível mesmo...
- Vai pro inferno, maldito! Pior que o homossexualismo de protesto, que a arte engajada, é a política de resultados. Tu tem que gastar sua energia negativa é com esse pessoal que xinga o adversário num dia e no outro, quando depende dele, está abraçando e beijando. O que meu filho faz é um trabalho de solidariedade, de amor ao próximo.
- E de quem ele anda próximo ultimamente?
- Ah, vai...
- Dizem que ele não anda dormindo na sua casa.
- Tem umas semanas que ele tá na casa de um companheiro de associação.
- Humm...
- Eles tão desenvolvendo um projeto e...
- Sei... Um projeto de uma vida em comum...

- Olha aqui...

- Ou tem uma equipe grande nessa coisa de projeto na casa do amiguinho?
- Não. Só eles dois. Mas sem boiolagem! Sem boiolagem! O fato do outro rapaz receber pensão depois que morreu o sujeito que morava com ele antes não quer dizer nada.
- Claro que não... Gay sou eu... Rarrarrarrá!

- Porra! Pior é o Totó, que advoga em causa própria.

- Sem dúvida. Ele pratica o homossexualismo sem protestar.


Pratão e Pipócrates são filósofos de rua e discordam em tudo, menos na aversão a Aristóteles Omorris, o bom e velho Totó

quarta-feira, agosto 05, 2009

AOS AMANTES DE DITADURAS

De vez em quando alguém aparece dizendo algo do tipo “tá certo que era uma ditadura (e/ou regime sanguinário e/ou modelo opressor e/ou avesso à liberdade de expressão e/ou totalmente corrupto etc.), mas...”


Tal “mas” é então seguido dos supostos benefícios entregues à população por parte do regime ditatorial defendido – parcialmente ou não – por aquele alguém.


Esse tipo de defesa é primo em primeiro grau da maquiavélica expressão “os fins justificam os meios”. É fruto, portanto, de uma visão amoral, aética e simplista da política, da gestão pública e, muitas vezes, até da vida.


Às vezes essa postura decorre apenas de uma falta de reflexão, de um aprofundamento maior a respeito da gravidade de certos temas, de determinadas situações. E outra coisa, cá entre nós: a preguiça de pensar sempre foi aliada dos corruptos e dos ditadores.


O fato é que ressalva alguma redime um governo de exceção. Nenhum argumento pode ser aceito em defesa de uma ditadura ou de um ladrão. Isto deve ser um valor absoluto.


Hitler é uma das mais perfeitas representações do mal. Sua loucura levou mais de 50 milhões de pessoas à morte e outros milhões de famílias a um sofrimento que perdura até hoje. Assim, seu governo e sua passagem pelo planeta foram repugnantes, horrorosos, detestáveis, ignominiosos e execráveis. Ponto. Não tem novas estradas e outras obras que o tornem minimamente defensável. O Terceiro Reich simplesmente não deveria ter existido. Ele era a essência do mal, de tudo que prende a humanidade às trevas, ao atraso.


O regime militar brasileiro prendeu, torturou e matou quem lhe era contra. Suprimiu liberdades individuais e calou a imprensa. E daí que abriu novas estradas, que construiu Itaipu e a ponte Rio-Niteroi? A ditadura não deveria ter existido. Ela é uma representação do mal, sua essência também era maligna.


As viúvas de Mao, Stálin, Videla, Fidel, Franco e outros que me perdoem, mas elas não sabem o que falam. Qualquer regime que precise amordaçar (ou eliminar) alguém para poder funcionar não merece a mínima consideração. Quando o “consenso” se dá pela força, é porque a razão e o bom senso foram passar férias num lugar distante.


Ah, certos fins justificam certos meios? Então, se estou passando fome, é válido pisar na cabeça de alguém no chão para alcançar a lata de biscoitos, mesmo que isso vá infligir dor em outra pessoa?


Então tudo bem se eu construo uma estrada para beneficiar dois milhões de pessoas, mas fecho jornais e boto na cadeia quem não concorda comigo, causando dor a uns milhares de famílias?


Todos os ditadores, todos os déspotas estão no poder pelo poder. Dele se alimentam, dele se inebriam, dele retiram seu prazer. Todos os corruptos estão no poder pela ganância, para dele se servir, para dele tirar vantagem. Logo, todos os seus atos têm máculas, não visam o bem de todos – ou da maioria. Tudo o que fazem é movido por egoísmo e egocentrismo, ou seja, vícios, ou seja, derivados do mal.


Pois então saibam, vocês que defendem que esse ou aquele ditador, esse ou aquele corrupto deixou algo de bom, saibam que vocês também estão obrigados a apoiar os pais que porventura venham a matar os filhos para equilibrar o orçamento doméstico.

sábado, julho 18, 2009

FRASES PRA VER SE RETOMO O BLOG COM A FORÇA DOS PRIMEIROS MESES...

• No futuro, ainda que bem distante, o futuro continuará sendo melhor que o presente.

• Cúmulo do azar: Deus resolve provar que existe. Jesus, enfim, volta, mas é abatido pelo sistema de defesa aérea dos Estados Unidos.

• "Pô, logo agora que eu ia dar Roraima pra minha netinha?", reclamou Sarney.

terça-feira, junho 23, 2009

DICA DE LIVRO: "PETESBURGO", DE ANDREI BIÉLI


Petesburgo já foi chamado de Ulisses russo. Biéli, obviamente, de Joyce eslavo ou algo assim. Mas tanto um quanto o outro têm vida própria. Ninguém precisa ficar com Joyce ou qualquer outro autor em mente para se deliciar com esse livro cuja capa está aqui do lado. Como estou com pressa, não vou falar mais nada. Só recomendo a leitura e deixo uma sinopse meio vagabunda:

PETESBURGO
Andrei Biéli
Dimensões: 368 páginas - 14x21 cm

Sinopse: São Petersbugo, capital do Império Russo, epicentro de um terremoto a abalar culturalmente a Rússia, é o tema deste romance arrojadamente moderno. Cenas vividas no ano revolucionário de 1905, com clima de guerra civil marcado por atentados e pelo trauma da derrota ante os japoneses.

Escrito pelo maior teórico do simbolismo russo, Andrei Biéli (1880-1934), Petersburgo foi considerado por Vladímir Nabokov uma das quatro obras-primas em prosa do século XX, ao lado de Ulisses, de James Joyce, A Metamorfose, de Kafka, e de Em busca do tempo perdido, de Proust.

Publicada no Brasil pela última vez pela Ars Poetica, a edição nacional é rica em fotos da época, posfácio de Albert Avramenko, da Universidade de Moscou, e notas dos eslavistas R. A. Maguire e J. E. Malmstad, de Harvard e Columbia. Achável em sebos...

quinta-feira, maio 28, 2009

TRECHO DO ABANDONADO PROJETO DE LIVRO BATIZADO DE "O PARTIDO DO INDIVÍDUO"


Só pra dar uma contextualizada básica, isto é parte de uma fictícia entrevista concedida pelo jovem candidato a presidente que protagoniza o livro. A entrevista foi fantasiosamente publicada numa paródica versão da atualmente semanal revista CartaCapital, chamada no engavetado livro de MapaCapital. LC são as iniciais de Laszlo Canto.



MC: Então é isso? Você vai usar seu poder de sedução contra os donos do poder?

LC: Não sei o nome do que vou usar. Só sei que se for preciso conversar pessoalmente com cada deputado, cada senador, cada empresário, cada sindicalista, cada banqueiro, cada fazendeiro, cada oligarca, assim o farei. É impossível conversar com cada cidadão, com cada criança, então tentarei fazê-lo por intermédio da educação. Precisamos urgentemente de uma geração livre dos velhos vícios.

MC: Cada município brasileiro tem uma oligarquia dominante, caciques que decidem quem deve se candidatar e quem deve ser eleito. Que cobram vassalagem de quem está fora do sistema — e que só entra nele para votar. E votar para manter as oligarquias. Algumas tornam-se transcen­dentes e enviam membros seus para a capital do estado, para o Congresso Nacional e chegam até aos mais altos cargos executivos. São eles que manipulam a verba da educação em suas regiões, que manipulam até mesmo os professores. Haja convencimento.

LC: Educação e exemplo. Estas as armas que utilizaremos. O presidente deve ser um paradigma para a sociedade. Melhoramos de paradigma com o atual presidente. Mas essa mudança de imagem deve ser estendida a todos os representantes do povo. Tenho difundido insistentemente essa visão, essa necessidade, entre nossos correligionários. Quero uma legião de exemplos. Exemplos vivos. Inspiração para o povo, para que as pessoas não permitam ser dominadas. Que abram os olhos para sua semimilenar submissão às mesmas pessoas, que se reproduz geração após geração. Para a massa ignara o feudalismo nunca acabou, sempre existiu como regra do mundo. Não é só da educação normal, antianalfabetizante que essa gente precisa: pretendo oferecer-lhe um banho de cidadania, de ética. Não quero sua alma, quero dar-lhe uma alma. Essa gente poderá ter opção. Opção, pois não pretendo obrigar ninguém a nada. Quem quiser ser vassa­lo para sempre, assim o será. O problema é que até hoje as pessoas não tiveram opção.

MC: As pessoas não saberiam o que fazer com sua liberdade. É coisa para várias gerações suprimir o instinto de subserviência das pessoas. Desde o homem das cavernas, nós nos acostumamos a depender das decisões de um só. Para o bem da maioria, que apenas um gaste sua energia pensando. Os outros, em troca, dispõem-se a obedecer de bom grado.

LC: Exatamente. Sonho com um estado delegador de responsabilidades. Que gradualmente vá passando certas atribuições à sociedade. Um dos nomes sugeridos para o PLI foi o de Partido do Indivíduo. Não no sentido ego­ísta do termo, mas no de despertar em cada um a percepção de sua indi­vidualidade. Por si mesmo ele pode libertar-se de suas amarras, de sua acomodação, de sua modorra. Creio que um favelado, um indigente absolu­to não tem outra alternativa que não acomodar-se, amodorrar-se. A solu­ção imediata, emergencial para o sujeito que chegou a esse estágio é a assistencial e regeneradora. Para os regenerados e para aqueles que não ainda desceram àquele nível, o máximo que o estado deve fazer é criar condições para que tal coisa não aconteça. É inventar meios para que não seja por falta de educação, saúde, emprego que o indivíduo trans­forme-se em indigente.

MC: Só será indigente quem quiser. Em o indivíduo querendo sê-lo...

LC: Que vá aos Correios. (risos)

MC: O que fazer com quem insistir em ser indigente, parasita, pária, marginal, outsider?

LC: Desde que não prejudique ninguém, laissez-faire. Se a pessoa não tiver condições de viver em sociedade, que abrace o estado de natureza. A mesma política indígena será estendida a quem queira adotar o estado de natureza. Porque acho discriminatório qualquer tipo de tratamento especial. Não haverá uma política específica para o índio, grupo étnico definido, mas para os que decidam viver em estado de natureza. A polícia, o exército continuarão a existir enquanto houver indivíduos dis­postos a ferir a liberdade dos outros. Especialmente a liberdade de existir, o direito de ser. Mas se a pessoa tiver uma vocação irresistível para a mendicância, ela não será proibida de exercê-la. Afinal, dá e pede quem quer. Apenas o estado se reservará o direito de não dar. Pois já terá dado tudo àquele mendigo: educação, remédios, ofertas de emprego. Claro que se ele adoecer terá assistência médica gratuita. Agora, colinho e papinha, só a mamãezinha dele. (risos) Obviamente que refiro-me a um estado ideal, ainda utópico. No momento, qualquer gover­no sério que assuma, devido a situação de emergência em que nos encon­tramos, terá de adotar por algum tempo uma política assistencialista. Mas ao mesmo tempo criando as condições para que isso não seja necessário no futuro. Está no nosso caderninho.

MC: Mas, em suma, a quebra das oligarquias se dará pela base, desenca­deada por uma revolta dos oprimidos? Uma revolta sem sangue, sem um desligamento violento dos antigos laços servis?

LC: Saber para libertar-se; conhecer para saber como usar a liberdade. Uma revolta pacífica, gradual. Quando o velho coronel em sua cadeira de balanço perceber, ele estará mandando apenas em seus boizinhos. O que acontece já nos dias de hoje? Onde há um povo mais educado, ou melhor, com mais escolaridade, a oligarquia tradicional, oriunda do velho coro­nelato, século XIX, já não impõe sua vontade às pessoas. As oligarquias do Sul preferem exercer seu poder de persuasão diretamente com os pseu­do-representantes do povo. São os lobistas a serviço dos magnatas os representantes dos neocoronéis. Então, acabar com as oligarquias tradi­cionais é atribuição dos indivíduos devidamente instrumentalizados pela ação do estado, enquanto os neocoronéis devem ser combatidos diretamen­te pelo governo, pela despatrimonialização do setor público. São dois fronts contra as forças conservadoras. A imprensa, a justiça, bem que poderiam dar-nos a mão para fechar o cerco. Elas, no entanto, devem antes limpar a si próprias do entulho atrasadista.

MC: No caso da imprensa, que é minha área, acho difícil ocorrer essa limpeza, pois é patrão contra empregado. É setor privado. Uma revolta pacífica nesse “poder” é quase impraticável.

LC: É possível sim, Nino. Vocês, quer dizer, nós — eu também sou jor­nalista — chegaremos lá. Como disse a poetisa...

MC: Desculpe-me pela interrupção, mas as moças que versejam gostam de ser alcunhadas de “poeta”.

LC: Mas a palavra “poetisa” é tão bonita. Da mesma lavra de belas pala­vras de onde vieram “mãe”, “imperatriz”, “rainha”. Por questão de prin­cípios, preferência estético-sonora, inclusive, continuo dizendo que a poetisa Elizabeth Bishop, que morou no Brasil, nos considerou um povo amável, que faz “revoluções sem sangue”. Uma marca da qual deveríamos nos orgulhar. E manter. Faz tempo que ela escreveu isso.