sexta-feira, junho 24, 2011

DICA DE LIVRO: NO TEMPO DAS ESPECIARIAS

Os americanos que dançavam o vira

Eles rodavam o mundo em busca de boas oportunidades de negócio. Quando as encontravam, fechavam negócio. De qualquer maneira, mesmo que não tivessem o consentimento da outra parte. Quando seus interesses, ainda que fossem na verdade os interesses de sua elite, eram ameaçados, partiam para a ignorância usando quaisquer pretextos, agarrando-se a qualquer justificativa, mesmo que esta não justificasse nada, pelo menos aos olhos e ouvidos de seres dotados de alguma sensatez.

Antes que me acusem de estar fazendo mais um exercício de jornalismo futurista, daqueles que aparecem em obras de ficção científica ambientadas no porvir, esclareço que o parágrafo acima não se refere aos hábitos contemporâneos dos Estados Unidos enquanto entidade promotora de ações público-privadas em grande parte desprovidas de simpatia pelo mundo afora. O relato é parte do que se pode depreender do livro "No tempo das especiarias", de Fábio Pestana Ramos, que conta a saga do portugueses no breve (historicamente falando) período  em que nossos "descobridores" dominaram a rota marítima das Índias e conquistaram o título de Império da Pimenta.

Sem tato e sem qualquer diplomacia, Portugal começou a fazer seu caminho alternativo rumo à fonte das valiosíssimas especiarias pela costa da África. Para vender o produto diretamente na Europa, sem o incômodo dos mercadores italianos e árabes, que faziam a rota por terra, os conterrâneos de Camões impunham-se pela força a quem estivesse pela frente. Com a desculpa de que precisavam combater os infiéis (muçulmanos) e/ou trazê-los para a "verdadeira fé", obtinham facilmente bulas papais, espécie de autorização do Vaticano para a prática de atrocidades, carta branca para expor partes do corpo que normalmente não veem a luz do dia, desde que os proprietários desses órgãos não fossem bons cristãos.

Já Bush júnior recorria a fajutos relatórios sobre a existência de armas de destruição em massa escondidas em território iraquiano... Mas voltemos aos séculos XV e XVI.

Com incontornável e truculenta mania de impor suas religião e cultura aos povos litorâneos da África e da Ásia, os portugueses foram colecionando inimizades e antipatia. A fama já os precedia quando finalmente chegaram ao subcontinente indiano. Assim, não era de se estranhar que os nativos rebelassem-se a todo momento, chegando a fazer associações com os "bonzinhos" ingleses e holandeses contra nossos patrícios. Com mais, digamos, jogo de cintura, as outras duas potências marítimas ficaram com o espólio do breve império luso nas Índias até meados do século XX.

Além da marra, pesou contra a hegemonia portuguesa o fato de que em 1580 a Espanha abocanhou toda a península ibérica, graças à impetuosidade irresponsável do rei Dom Sebastião, que gostava de tomar a linha de frente das batalhas de peito aberto, pleno de patológica coragem. Os mouros o mataram na famosa contenda de Alcácer-Quibir, ele não tinha herdeiros, o reino ficou na dúvida sobre quem tinha direito ao trono, as elites estavam simpáticas aos vizinhos, abriram-lhes uma brecha, eles vieram e pronto: Inês era morta (opa, este é outro episódio - o da Inês - da lusa história).

Bom... e que lição tirar de tudo isso? Nenhuma. Só constatar que mudam os tempos, os nomes, as nacionalidades, mas o ser humano é o mesmo, a mentalidade não evolui em um aspecto: a ganância. Quem detém o poder exerce-o sem pudor. A potência de plantão vai sempre explorar ao máximo os outros povos. Sempre foi assim antes de Portugal. É assim com os Estados Unidos hoje - e crescentemente com a China.

Portugal só entrou no baile por causa do livro do Fábio Pestana Ramos, cheio de méritos e digno de elogios pela extensa pesquisa em arquivos lusitanos e também brasileiros - já que ele fala da "carreira" do Brasil, sucessora da rota da Índia.

O único problema em relação à obra é que, especialmente por ter resultado de uma tese de mestrado, apresenta muitos deslizes gramático-ortográficos. Outro reparo para as próximas edições é prestar atenção aos nomes de pessoas e lugares. Por exemplo, somente na página 182, o rei Felipe II, primeiro soberano durante o domínio espanhol, foi chamado de Henrique, Fernando... e até de Felipe.

NO TEMPO DAS ESPECIARIAS
AUTOR: FÁBIO PESTANA RAMOS
EDITORA: CONTEXTO
288 PÁGINAS
ISBN: 978-85-7244-334-0

2 comentários:

  1. Cabral, poderia me enviar uma resenha do livro para estudo ?

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    1. Olá, Yzabella! Obrigado pela visita a este humilde blog.

      Eu encontrei um texto escrito pelo próprio autor do livro. Muito interessante. Eis o link: http://pralmeida.tripod.com/academia/05materiais/15FabPEstanaTempoEspeciar.pdf

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