quinta-feira, outubro 05, 2006

TRECHO DE "O AMIGO DE PRAGA"

Pela manhã Etê queria ele mesmo retirar a bala com um alicate comum.
Sua pele não fora perfurada, mas afundada entre duas costelas em cerca de três centímetros. Mas Dennis convenceu-o a procurar o médico. No carro, a caminho da cidade, ainda tinham o que conversar.
— Como foi aquela história de apagar os sujeitos com um golpe só?
— Foi o resultado da combinação de alguns cálculos que eu fiz levando em conta a força e a precisão necessárias para provocar um desmaio no oponente. Considerando-se peso e altura aproximados dos adversários, aplica-se um golpe com determinada força num ponto restrito de sua nuca.
— Você andou estudando anatomia, física, essas coisas, não?
— Andei estudando tudo o que é passível de ser estudado.
— No que está com toda razão. E agora? Vamos continuar defendendo os fracos e oprimidos?
— Você fala com a tranqüilidade dos que foram apenas dar um passeio. Como se agredir pessoas fosse uma brincadeira.
— Não, eu...
— Sim, eles eram bandidos, mas suponha que eles vivessem numa sociedade justa, sem brutais diferenças sociais, sem um abismo entre ricos e pobres, em que todos tivessem oportunidades de viver condignamente. Nesse hipotético caso, eles recorreriam a uma atividade de altíssimo risco que é o crime? E certamente há um cérebro por trás de tudo, comandando as ações. Pelo linguajar simplório, pode-se perceber que eles não passavam de subalternos.
— Com estas prisões o delegado poderá chegar ao mandante.
— Sinto-me mal por tê-los agredido. A dor provocada pelo tiro não é nada comparado ao sofrimento por ter causado sofrimento a outrem.
— Você fez o que era preciso numa situação extrema. Só conversa não os convenceria a voltar para casa e procurar emprego.
Já no consultório, munido de uma pinça, em poucos minutos Conrado retirou o projétil encravado.
— Etevaldo, meu velho, vai ser preciso um fuzil dos bons pra furar sua couraça. E olhe lá. Só estou em duvida é sobre o tempo que vai levar pra sua pele voltar ao normal, porque afundou e arroxeou o local. Se é que vai voltar ao normal. Isso pra mim é novidade.
— De qualquer forma, obrigado, doutor.
— Vai vestindo a camisa. Eu vou falar com o Dennis lá fora.
Dennis, na sala de espera, lia uma revista quase tão velha quanto ele mesmo.
— Dennis, meu garoto, o que vocês fizeram foi uma loucura. O Inácio já deve ter dito pro delegado que quem acabou com o assalto foi um magrelo alto e cabeçudo acompanhado de um indivíduo mais jovem. Logo, logo baterão na porta do seu avô. Quem mais no estado todo se encaixaria nessa descrição? Daí vão investigar o Etê, vão descobrir que ele não tem documento nenhum, que não é tcheco coisa nenhuma. Então vão ligar sua aparência com a do piloto morto daquela nave e pronto.
— Seria terrível. Teremos de estar preparados. Mas não é isso que me preocupa mais, doutor.
— Então é o quê, criatura?
— E se o Etê tiver sido mandado para iniciar um processo de invasão do nosso planeta? Já pensou um batalhão, uma população inteira de seres como ele? Nós seríamos dominados como um grupo de crianças por um pelotão do exército.
— Difícil imaginar alguém como o Etê com um propósito tão sinistro.
— Por melhores que sejam, soldados cumprem ordens. O problema é quem dá as ordens. O problema é que não conhecemos a personalidade do Etê integralmente. Muito menos a de seus conterrâneos. E se for um povo onde o mau-caratismo domine?
— Pára com isso, Dennis! Você me provoca calafrios com essas suas suposições. Venha, vamos ver nosso amigo.
Ao entrar no gabinete depararam-se com Etê imóvel sobre a maca. Em suas mãos, o estetoscópio de Conrado, objeto que o alienígena fitava como se o estudasse detidamente. Absorto, demorou para perceber que havia alguém ao seu lado.
Tanto Dennis como Etê passaram o resto daquela manhã e quase toda a tarde mais pensativos, mais sombnos, eles que sempre eram tão alegres. O clima lúgubre só foi quebrado pelas noticias trazidas por Juraci.
— Ocêis tá sabeno o quêqui aconteceu?
Dennis sobressaltou-se. Em sua cabeça não tinha mais dúvidas: toda a cidade, toda a região estavam a par do que ocorrera na madrugada anterior. Era questão de tempo a policia chegar para fazer algumas perguntas. Logo depois viria um ávido e truculento destacamento da Aeronáutica.
— O que foi, homem de Deus? — impacientou-se Prudente. — A mulher do padre pediu divórcio?
— Que que isso, seu Pruderite? Isso é pecado, sabia.
— Fala, Juraci — suplicou Dennis.
— Uai, sô, o delegado prendeu a cambada qui tava robano gado. Diz qui quem prendeu de verdade memo foi o seu Inácio e a piãozada dele.
— O quê? — surpreendeu-se Dennis, com uma ponta de indignação.
— Foi o qui o delegado falô. Diz qui o seu Inácio distribuiu purretada na cabeça dos hômi. Os pião acordô cum os grito e foi lá e terminô o sirviço. Aí o seu Inácio pegô a carabina dêze e mandô os otro ficá bem quetin. Adispôis amarrô os bandido e chamô a puliça.
— O Inácio? Com aquela barriga? — estranhou Prudente.
— E os bandidos? — quis saber Dennis. — Confirmaram a história?
— Diz qui um dos lalau falô qui o capeta tava do lado do seu Inácio, um fióte de cruiscredo do tamãi dum poste qui bala ninhuma num dirrubava. Otro falô qui era um pião do seu Inácio qui tava de tôca infiada na cabeça. Aí o seu Inácio falô qui éze tava tudo era variano pur causa das pancada no coco. Tinha uns qui foi pego na gabina e viu de perto o mascarado, mais tava iscuro e êze tava mais percupado era ca carabina do seu Inácio.
— O delegado não desconfiou de nada? — perguntou Dennis, tentando disfarçar seu exacerbado interesse.
— Ele ficô mêi anssim. Diz qui ele ficô mêi sem sabê cumequi uns cinco hômi disarmado pode dá conta de oito bandido cheio duns trabuco. Mais a famía do seu Inácio garantiu qui foi tudo verdade verdadera memo.
Para espanto de Prudente e pasmo e terror de Matilde, a dupla aventureira, logo após o jantar, contou-lhes toda a verdade. Verdadeira.
— Sabia que o Inácio tava de lorota — disse Prudente.
— Mas que perigo! Como vocês tiveram coragem de... Ah, meu Deus. Tá doendo muito, Etevaldo? Que seja só essa vez, viu? Não quero saber de vocês arriscando a vida por aí, não? Principalmente você, mocinho — disse Matilde, olhando severamente para Dennis. — Onde já se viu? Você nem tem pele que nem daquele bicho... como é que chama mesmo? Rorio... rino... renoceronte!
— Viva a vaidade humana! — comentou mais tarde Dennis. — Graças a ela seu Inácio fez por nós o trabalho de despistar a polícia. Ele deve ter combinado a mentira com seus peões e a família. Coisa feia... e bem-vinda.
— Fico me perguntando qual a vantagem que Inácio Caldas pode angariar ao assumir a detenção dos ladrões — disse Etê.
— Fama, prestígio, admiração...
— E daí? Sua vida vai melhorar com esses ingredientes? Ele vai tornar-se uma pessoa melhor, mais plena, mais feliz?
— A glória é a mãe das histórias de pescador. Ainda que falsa. É um meio de se eternizar mesmo que em forma de lenda.

2 comentários:

  1. Algomel11:11 AM

    Como é bom rever trechos de um livro que gostei imensamente. Foi na realidade uma grata surpresa o livro como um todo, já que o autor com sua seriedade...bem isso já é outra história. Alvaro de Lima, o amigo dos amigos.

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  2. Os personagens do livro são inesquecíveis. Gostaria de ver a saga continuar. Quanto ao escritor, acho que ele está ibernando. Que saia desse estado e volte aos ótimos personagens e faça com que eles tenham mais aventuras.

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